Eu.
Meu quarto.
Onze horas da noite.
Palavras que nao tive tempo,tempo, tempo... oportunidade, ou simplesmente nao quis falar.
Linhas brancas logo abaixo esperam ser preenchidas... papel vazio, vozes caladas no tempo e no espaço... o relógio da vizinha... acabou de tocar.
Ele sempre toca,toca... oca, ôca...
e agora alarma 11 vezes toca toca, é realmente onze da noite, onze toques... toque, me toque.
Lá fora chuvinha cai fina, gostosa.
Eu?
aqui dentro.
Camisolo. Pés descobertos, dá mais frio ainda quando estão assim.
Vento que faz sonoplastia invejável. Barulho de sereno batendo no telhado.
Espetaculo natural de vida cotidiana.
Acordar, banhar, estudar, trabalhar... e tantas outras minuncias cansativas, prazerosas, estressantes, harmoniosas.
Compasso e descompasso. Todos os dias, o dia todo.
Olhos fechados, lembranças, fantasias, detalhes... de migo, comigo, contigo.
Eu em noite de luar... praia, mar, areia branquinha, pé no chão... pega-pega que me pega e eu te pego.
Beijo na boca, no queicho...boca no queicho!
- Me dá beijo? Beijo bom. Beijo no rosto, na testa, na boca, no coraçao.
Movimentos dançados de instinto e prazer. Poesia vivida, interpretada.
Teatro de cenas fragmentadas, entrecortadas, despedaçadas...que vão, que vem.
Corpo no corpo, colado. Friozinho na barriga, silencio alucinante, alucinado, ofegante.
Suspiros, sentimento de incerteza, de pudor, de dúvidas, de desejo, de amor repentino... ai meu deuso! Será?!
Amor cristalizado, cena parada, estática, onde o amado é personificado na figura de um deus trovador, começo de uma embriaguês.
De ambos?!
Sei nao! De alguma das partes pelo menos. Que seja então!
Histórias...história de navio, caravelas, pescadores... a imensidao do mar...onda que vai e que vem. Transformada ou transtornada.
Palavras...letras... que se forma sílabas, que se forma palavras, que se forma frases, que se forma texto-histórias, historias desencontradas.
Vontade de calar boca com beijo, beijinho só, que traga desejo.
Cheirinho bom, gostoso...cabelo comprido!!!
- Porque não solta?
Deixa ventar, espalhar, esvoaçar, cativar, en/cantar canto da liberdade, do amor sem expansão, sem direçao, explicação.
-Será que seu óculos é mágico? É a luneta que consegue ler o coraçao?
Amor que se sente no dia, na palavra, no silencio, olho, toque, corpo, sentimento.
É que ... nem deu tempo.
Tempo apressado, despedaçado.
Neu deu tempo... menino véi!!!
Falar, sentir, tocar, cantar, dançar música de carinho, sei lá... tudo tão rápido.
Loucura!!!
Viagem que chama, malas que espera partir... a partida, repartida.
Caminhos contrários, desencontrados, vida que espera ser continuada, vida transformada, mexida, remexida, alterada.
Despedida, abraços, beijos, selinho só... dá cá... vontade de ir/ficar, ficar/ir.
Encanto rompido!
- Vai ficar bem?
-Vou ficar com saudade.
Trago-te ... trago-te no corpo, na saudade que grudou em mim... que nao quer sair... lembrança pregada.
Sono dormido, sonho sonhado, noite acabada, acordada, despertada.
Lua que passou, renovou.
Mundo que gira e me gira... distante-distancia... longe-perto, dentro de mim/ti... passado/presente... vida continuando.
- Será que algum dia ainda nos veremos? Sei nao... te espero como uma onda.
tic-tac...tic-tac... tempo, tempo, tempo...
O relógio...tocou de novo?! Que pôrra!!!
Meia noite, me vou... dormir...tempo passou... boa noite!
tic-tac...tic-tac...
Aurilene Pereira